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what really happened to Tom Riddle

Descubro que o Rica fez um blog, veja só. Grande figura. Lembrei que já havia mencionado ele uma outra vez, e me pareceu uma boa oportunidade para resgatar um dos textos do velho Solo de Air Guitar.


O caso do homem que odiava pijamas

A maior expressão de liberdade de um homem revela-se em seu tempo de repouso, me dizia Henrique. É na sua intimidade mais secreta que podemos saber se ele abraça a vida em todas suas possibilidades ou se deixa-se algemar pelas normas convencionadas de uma sociedade hipócrita. Eu retrucava que isso não era motivo para dormir sem calças nas viagens para a praia, especialmente quando pousávamos na casa da tia do Pardal em Tramandaí. Henrique, que abolira pessoalmente o uso regular de roupas íntimas, tentou nos ensinar a não usar cuecas de noite: elas representavam o nó górdio da repressão sexual, as camisas de força da libido, e além disso atrofiavam o tico.  “Teu pênis já passa o dia de trabalho encarcerado na penitenciária Zorba; que extrema injustiça ceifar-lhe os movimentos também nas horas de folga!” Tentava nos arrebanhar mediante retórica hippie; esse, porém, era apenas o primeiro passo; o plano maior envolvia banir completamente qualquer roupa ao adormecer. Acho que apenas o Rica comprou essa idéia. O Rica valorizava muito suas ereções noturnas.

Mas não na casa da tia do Pardal. Todas as noites era a mesma briga. “A velha não tem nada a ver com tuas contestações, Henrique!”, berrava o Pardal, porta-voz dos convivas, brandindo ameaçadoramente uma toalha molhada. “Ovelha do establishment! Engrenagem da repressão!”, retrucava, assim, com palavras em itálico mesmo. “Pouco me importa se tu não tens pijama. Veste alguma coisa logo ou te ponho pra dormir na rua, cacete”. Em desvantagem numérica, invariavelmente o Henrique cedia e procurava uma bermuda de abrigo velha.

Henrique odiava pijamas do fundo do coração. Amantes não usam pijama, vestem-se da pele nua dos amados. Boêmios trajam o que conseguirem lembrar por cima do que esqueceram de despir. Fugitivos procurados nunca reservam lugar para pijamas em suas mochilas. Vocês nunca verão o Superman de pijama. A simples existência de um vestuário destinado a engessar o corpo nos limites da alcova, quiçá à extensão domiciliar, soa como afronta. Pijama é o uniforme dos que abdicam, dos que se entregam, dos que levam a vida em uma perpétua sonolência.

Henrique só abria exceção para pantufas, porque o inverno no Bom Fim é frio pra caralho.

Questão de opinião

Eu tenho uma opinião. Encontrei-a ainda pequeno enquanto voltava da banca de revista. Mantive escondida. Meu pai sequer me deixava ter um cachorrinho, certamente me botaria para fora de casa se descobrisse minha opinião. Creio que começaram a desconfiar depois de algum tempo – minhas ausências nos encontros de família, meus sumiços nos sábados à tarde, os esporros proferidos quando minhas irmãs fuçavam nas minhas coisas -, mas optaram pela vista grossa (estratégia que Seu Alfonso só viria a endossar mais recentemente).

Tenho asco desses sujeitos que se gabam de ter uma opinião forte, regularmente banhada e alimentada só com ração estrangeira. É bem guaipeca a minha opinião, como são essas opiniões sem dono que vadiam por aí. Tem todos os vícios de uma má-formação: magrela, manca de uma perna, arredia; nunca consegui docilizá-la direito. Outro dia mesmo levei na praça e minha opinião quase se atracou com um argumento favorável às cotas raciais. Todo mundo ficou me olhando com aquele olhar de reprovação que condena por eu não saber cuidar da minha opinião direito. Foda.

Porque eu acho que opinião se cria com porteira aberta, sabe? Que ela vá e volte na hora que der na telha. Que traga outras opiniões para brincar e contraia umas perebas no processo. Que se engrace com a rafoagem e apareça grávida numa manhã de domingo, para que quando der cria eu coloque um aviso no blog: ninhada de opiniõezinhas para adoção, sirvam-se à vontade. Só não fico com todas para não me acusarem de ser um formador de opinião.

mundo-verdade

Firmamos esse acordo, Pierre e eu, que mutuamente nos impede de escrever no blog sobre qualquer filme lançado há menos de dois anos. E fizemos isso para nossa própria proteção – ou minha, pelo menos, visto que qualquer comentário miúdo acaba se transformando em um spoiler ogro na minha cabeça sem que eu nada possa fazer contra tal maldição. Considerando que ninguém gosta de spoiler (à exceção daquelas criaturas que transformam o porta-malas do carro em uma sonora máquina de produzir desafetos, declarando não apenas a falência do bom senso musical como também o desprezo pelo complexo auricular alheio, provavelmente em retaliação a um universo hostil que lhes conferiu membros sexuais de dimensões assaz inferiores à média humana) -obrigado pela colaboração, Pierre-, a medida foi facilmente aprovada por todas as partes implicadas.

Decidimos, portanto, que dois anos seria um prazo bastante justo – o que te confere tempo suficiente para assistir nos cinemas, alugar o DVD, comprar a trilha sonora, ler a obra originar para gargantear que o livro é melhor que o filme e por aí vai.

Todavia, para não deixar nossos leitores na escuridão, introduzimos uma emenda que permite a postagem de não mais de uma frase e/ou imagem por película, contanto que ela se encaixe nas regras previamente observadas. Ainda deliberamos se informações adicionais importantes mas potencialmente perigosas poderão ser incluídas via extended entry – meu voto é contrário, mas os argumentos do Pierre têm consistência.

Tudo isso para informar que, embora mui tentados, não nos pronunciaremos sobre A origem, mais recente produção do Christopher Nolan. Reúne uns trocados e te manda pra sala de projeção mais próxima, porque vale a pena demais. Conversamos nos comentários.

Filmes I

Dear Zachary (2008)

Pouco depois do assassinato de Andrew Bagby, Kurt descobre que a ex-namorada do amigo estava esperando um filho e decide produzir o filme como um presente à criança, o Zachary do título.

A sinopse do filme, lida muito por cima para evitar denunciar o enredo, prendeu minha a atenção por lembrar aquele filme estrelado pelo Michael Keaton. Mas eu convenientemente esqueço que a vida supera a arte e me deixo surpreender uma vez mais. O documentário (reveja teu conceito de documentário) se desdobra colhendo depoimentos de amigos de Andrew e acompanhando Kathleen e David, pais de Andrew, no infindável julgamento pela guarda de Zachary. Resulta uma narrativa que não se consegue obter se não houver uma implicação apaixonada e declarada no acontecimento que a câmera se propõe a registrar.