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É oficial: em reunião da diretoria, convencionou-se pelo encerramento das atividades deste blog até abril de 2011, salvo em caráter excepcional.

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Queria ter tirado uma foto do cabo de força corroído para colar na parede e lembrar de nunca mais desprezar pequenos sintomas. Porque o sujeito precisa dispor de um certo número de ancoragens que lhe digam onde está – dentre os meus está essa lata velha que só ontem voltou a funcionar. Que coisa.

Ocorre que, por certas preferências arquitetônicas, Tio Ariosto instalou seu escritório no segundo pavimento – e por escritório entenda-se a mesa do computador acrescida dos componentes necessários para um funcionamento cômodo e adequado. Compreendo que tal equipamento tornou-se item de primeira necessidade para toda a geração nascida de 1980 para cá e me espanta que tais indivíduos ainda consigam reconhecer a própria caligrafia, mas hesito em tomar o mesmo barco. Não porque despreze a tecnologia, como esses senhores de proeminente abdome que ainda hoje compram CDs e constituem apenas uma filial mais recente dos meninos pretensamente alternativos que preferiam o vinil como se isso representasse uma posição política implícita de resistência a alguma coisa, não é disso que se trata, afinal, e se me permito algum distanciamento desso complexo de silício e alumínio é mais porque me distraio demasiado fácil.

Não é, no entanto, a distração, nem a má vontade e nem a preguiça, pecados capitais para quem se julga apto ao ofício de escrever, que andam mantendo-me distante do elegante escritório de Tio Ariosto; em realidade, é uma soma de fatores heterogêneos cujo agenciamento só posso deixar indicado. Digamos, por exemplo, que a disposição geológica desfavorável no que se refere ao comportamento eólico torna a casa absolutamente suscetível às inclementes rajadas que partem do Guaíba, embaladas provavelmente por brisas que vem d’além-mar e que, cruzando São Francisco de Paula, convertem-se nos mais coléricos pés-de-vento. Mais estudos metereológicos tivesse eu e não ousaria afirmar que o Minuano é rebento do Kilimanjaro e dos Alísios, mas manjo lhufas e divago. Dizia eu que a impiedosa força da natureza não encontra outro obstáculo em sua trajetória senão o sobrado de Tio Ariosto, atacando em particular a quina onde, nenhuma surpresa, encrava-se o insólito gabinete. É pancada dia e noite, cavalheiros. O vento chuta, tromba, assovia seu corpo fresta adentro em uma canção de vitória antecipada. Tenho a vívida sensação de que a qualquer hora uma das janelas não suportará, arrebentará vidraça adentro e logo sairá voando pátio afora, e eu é que não quero estar perto quando a hecatombe vier.

De tempos em tempos, com intervalos irregulares entre cada período, venho cuidar da casa de Tio Ariosto.  Tio Ariosto,  a quem as confianças no mundo são poucas, entende que sua ausência pode dar margem a que sua residência seja assaltada, ou que vizinhos mal intencionados envenenem seus gansos, ou que o pequeno pomar seja invadido e subjugado pelos traquinas das redondezas, ou qualquer evento que perturbe sua organização inviolável. Quando precisa ausentar-se para tratar da saúde, para tomar a estrada ou por ela ser tomado, para visitar parentes menos próximos espacial e afetivamente, ou por razão de semelhante porte, convoca alguém para assumir sua habitação, invariavelmente incluindo-me entre os eleitos. O que não constitui nenhum sacrifício: aproveito essas tais incursões para explorar a vasta biblioteca que meu tio mantém, herança dos tempos em que sua vista conseguia acompanhar com menos sofrimento os tipos impregnados no papel. Da última vez encontrei parte de uma seleção de Júlio Verne (três volumes, creio que a seleção total continha doze ou quatorze) com ilustrações de encher os olhos; doutra, travei contato com Poudhon, Bakunin e outros cavalheiros cujas idéias me perturbaram por algum tempo; e não menos poderia dizer das recentes descobertas de Ítalo Calvino, ao qual admito não ter podido me dedicar o suficiente.

Adepto da reclusão, Tio Ariosto fixou residência na encosta de um dos morros que circundam a concentração urbana de Porto Alegre, em uma faixa semicontínua que percorre um significativo espectro cardinal e ainda assim, por comodidade geográfica, convencionou-se chamar de “Zona Sul”, em contraste ao descampado do extremo norte. O sobrado de dois andares e meio encravado em um terreno largo oferece refúgio para quem, como eu, admite alguns momentos de pré-modernidade.

O que justifica apenas parcialmente meu desaparecimento momentâneo.

– Você pagará caro por isso, Li Xiang! – berrava o vizir, dedo em riste, valendo-se da voz grave e dos não menos graves guardas do palácios, cujas cimitarras nervosas impeliam-se para fora das bainhas.

E eu começava a me arrepender amargamente de ter me metido em tudo aquilo, deveria ter ficado na minha vida camponesa, comendo bolinho de papoula e caçando lebre, até aparecer aquele velho pirado com a história dos onze generais e da traição ao imperador e o grande tesouro mágico secreto e o treinamento de kung fu para me tornar o Portador da Fênix Celestial de acordo com a antiga profecia.

E eu ali, já pensando que de repente teria sido melhor desistir dessa indiada, o imperador já estava velhinho mesmo, e pelo aspecto esse vizir também já anda pela bola sete, quem sabe a gente não esquece isso e vai tomar um café? Um dia vamos lembrar dessa história e rir muito. Guarda essa espada, precisa disso não, olha, eu já vou indo, foi um prazer hein.

Tarde demais.

Me viro e descubro que não há como chegar à porta. O corredor prolongou-se mil vezes, e mil vezes corro sem conseguir alcançar a saída, esmurrando um soldado aqui e ali, desviando de flechas e dardos e lâminas disparadas à esmo, esquivando armadilhas e procurando uma janela, um alçapão, qualquer coisa, mas só tem parede parede parede. Do outro lado delas, consigo ouvir o povo descobrindo a farsa do facínora vizir e bradando em revolta, se bem que não tem um filha da puta entre eles capaz de destrancar a maldita porta, o que me obriga a abrir caminho na base do muquetaço. Porque eu sou Li Xiang, O Insolente, Portador da Fênix Celestial, que veio para libertar as massas e desvencilhar o povo das garras da tirania.

A tia do SOE nunca entendeu o que me levou a arremessar meu tênis na professora substituta de matemática no meio da prova de recuperação.

27/08

Dia dos escultores de almas, domadores de feras interiores, ouvidores gerais, arqueólogos de cidades invisíveis e procuradores de palavras. Abraço.

Quando tens 26 anos e percebes que o ponto alto do teu dia foi ler histórias para uma criança autista é que tu entendes que tua vida está no rumo certo, apesar de tudo.